BH, 3 de novembro de 2026
Terça-feira, 10:02
BH agora: 25°C

Obrigada por lembrar

Coluna assinada por Jeferson Magno Amorim Manini, Bombeiro militar e escritor, colunista de crônicas sobre Belo Horizonte. O texto reflete a opinião do autor e não representa necessariamente a posição do Na Savassi.
Obrigada por lembrar
Imagem ilustrativa Na Savassi/IA
Antes de dormir, fiz um textão desejando feliz aniversário, muita paz e saúde. Mas apaguei e fui dormir. Acordei, digitei o nome dela e a foto estava lá. O não a gente já tem, né? Do texto enorme da noite anterior, mandei apenas: Feliz aniversário!!!

Fazia muito tempo que eu não falava com a minha ex, e não haveria dia melhor do que o aniversário dela para mostrar todo o carinho que eu ainda tinha.

O tracinho virou dois, e a ansiedade de esperar os tracinhos cinza ficarem azuis aumentou. Olhei por alguns minutos, esperando que ela visse, mas, sem confirmação, fui fazer as minhas coisas. Ela não respondeu, mas também não me bloqueou.

Entrei no site Astrological Birth para ver meu mapa astral, que dizia: "O dia pede atenção a relacionamentos sérios e parcerias. O clima emocional fica mais caloroso, orgulhoso e expressivo." E, como ela não havia me bloqueado, tomei isso como um sinal divino. Os astros estavam a meu favor. Afinal, se a mensagem chegou e nenhuma medida de segurança contra a minha pessoa tinha sido tomada, talvez — só um talvez, é claro — ainda houvesse uma pequena possibilidade de diálogo. Resolvi tentar novamente.

— Oi, vi que não me bloqueou, então achei que ainda podia falar com você. Vai no Didio Burguer domingo?

Ela respondeu:

— Ei, quanto tempo! Nem esperava essa mensagem, mas obrigada pelas felicitações.

— Não te bloqueei porque esqueci. Shuahsuhaa. Obrigada por lembrar.

Respondi:

— Shuashuashuashuashua

A humilhação não bate à minha porta: eu tenho a chave, entro, sento no sofá e ainda pergunto se tem café.

Fiquei pensando na capacidade humana de construir expectativas a partir de absolutamente nada.

A pessoa não respondeu à mensagem, mas também não bloqueou. Pronto. Estava estabelecido o terreno para uma reconciliação, uma conversa, um reencontro. Quem sabe até compartilhar um Didio no domingo.

O problema é que, às vezes, o silêncio não é mistério. É só silêncio mesmo. As pessoas só não querem ter o desprazer de falar com as outras.

E o esquecimento, definitivamente, não é um sinal divino.

Mas admiro a coragem. Porque, entre mandar outra mensagem e passar o resto da vida imaginando o que poderia ter acontecido, pelo menos alguém decidiu esclarecer a dúvida.

Esclareceu.

Agora só falta devolver a chave.



Compartilhar: WhatsApp Facebook X LinkedIn
Leia também