Ralf Gomes Gomes
Coluna assinada por Jeferson Magno Amorim Manini, Bombeiro militar e escritor, colunista de crônicas sobre Belo Horizonte. O texto reflete a opinião do autor e não representa necessariamente a posição do Na Savassi.

Estava no Supermercado Estrela do Vale, domingo de eleição. O supermercado estava lotado, todos os caixas cheios. Eu estava na fila do caixa automático, esperando minha vez, quando comecei a conversar com a mulher que estava à minha frente.
Foi assim que conheci Ralf.
Não pessoalmente, é claro. Ralf era o cachorro dela, mas, pelo que ouvi, parecia ser o verdadeiro dono da casa.
Ele comia salmão, tomava iogurte, comia Sucrilhos e dormia dentro de casa. Não apenas dentro de casa, mas no próprio quarto.
Aquilo me chamou a atenção.
— Seu cachorro tem tudo isso?
— Tem, sim. Ele não come qualquer coisa.
Pensei: lá ele. Hoje, cachorro que dá sorte vive melhor que gente.
— E você tem filhos? — perguntei.
— Tenho o cachorro! Mas, além dele, tenho um filho de um relacionamento. Só que não nos damos muito bem, nem com o pai dele.
Contei que tinha duas meninas, que moram comigo.
Contei que tinha duas meninas, que moram comigo.
Perguntei o nome dele, do filho, e ela respondeu com um nome tão comprido que, ao final, eu já não me lembrava do começo. Fiquei sem graça de pedir que repetisse, mas uma coisa percebi: não tinha Gomes.
— Uai, o seu filho não tem Gomes?
Ela deu uma explicação mirabolante. Depois falou dos três netos, que também não conhecia pessoalmente. Só por foto.
A conversa continuou, e voltamos a falar de Ralf.
— Seu cachorro come de tudo, né?
— Come! Se deixar, come até a gente.
Lá ele, pensei de novo.
Pensei que Ralf tinha a vida de um rei. Vivia melhor que muita gente, era muito bem cuidado e, pelo jeito, não lhe faltava amor.
Mas fiquei quieto.
— E você tem cachorro? — ela perguntou.
— Tenho. O Léo.
Abri um sorriso de canto. A vida do Léo é um pouco mais modesta. Ele come ração e bebe água. Essa é a rotina dele. Nada de salmão, iogurte ou Sucrilhos. E, até onde sei, não tem um quarto só para ele.
Antes que eu terminasse de falar, ela perguntou:
— Água quente?
— Não, uai. Temperatura ambiente.
— Ralf só bebe água gelada. Se não for assim, ele fica com sede.
Fiquei imaginando a cena. O cachorro diante do pote, esperando a água na temperatura certa, enquanto o Léo provavelmente beberia a água que encontrasse pela frente.
Ela também contou que havia levado Ralf ao pet shop e que ele saíra de lá com roupa. Disse que, no começo, não queria levar a roupa, porque não ia ficar lavando nada. Mas, no fim, acabou levando.
Ralf Gomes Gomes não era um cachorro qualquer. Tinha nome completo, cardápio variado, quarto próprio, água gelada e roupas novas. Faltava pouco para eu perguntar se ele também tinha plano de saúde.
Ela olhou para a minha mão. Presunto, muçarela e uma mistura de bolo para fazer com as meninas mais tarde. Tinha pouca coisa, e ela percebeu.
— Vai fazer o quê para o almoço de domingo?
— Lasanha.
Ela olhou para as próprias compras e depois para as minhas.
— Pode ir. Tenho mais coisas que você. Você vai ser rapidinho.
Agradeci e passei na frente dela.
Saí dali pensando em Ralf Gomes Gomes, Gomes de pai e Gomes de mãe.
O Léo continuaria com sua ração e sua água em temperatura ambiente. Ralf, por sua vez, seguiria com seu salmão, seu iogurte, seus Sucrilhos, sua água gelada e seu quarto particular.
Cada um com sua vida.
E, pelo que pude perceber, os dois tinham algo importante em comum: eram cachorros amados. Só que um deles parecia viver como rei.
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