Pago no céu
Na Estação Vilarinho, um bombeiro perde o ônibus para ajudar um casal perdido. Uma crônica bem-humorada sobre gentileza no cotidiano de BH.
Coluna assinada por Jeferson Magno Amorim Manini, Bombeiro militar e escritor, colunista de crônicas sobre Belo Horizonte. O texto reflete a opinião do autor e não representa necessariamente a posição do Na Savassi.

O 6350 tinha acabado de chegar à Estação Vilarinho e eu, como sempre, saí correndo do ponto de desembarque em direção ao ponto de embarque do 01, que vai para a Cidade Administrativa. Já fazia seis meses e eu ainda não tinha decorado os horários dos ônibus. Seis meses. Tem gente que aprende outro idioma nesse tempo. Eu não aprendi a tabela do 01.
Corri, passei pela catraca e subi em direção à roleta do metrô. Havia outro caminho até lá, mas, como eu estava fardado e passava pela roleta sem pagar, preferia o mais rápido. A farda tem suas vantagens. Poucas, mas tem.
Fui em direção ao terminal pela escada rolante. Um pouco antes do último degrau, vi o 01 ligado. Lá estava ele, me esperando. Ou pelo menos fingindo que esperava. Adiantei alguns passos, já calculando a arrancada final, quando surgiu um senhor. Cabelo grisalho, com falhas na cabeça, alto, quase da minha altura, acredito que uns 1,90. Estava acompanhado da esposa.
— Bombeiro, onde para o ônibus de Lagoa Santa?
Vi que ele estava perdido. Olhei para o meu ônibus: ainda lá, parado, luzes acesas, motor roncando como quem diz "tô indo, hein". Ele poderia sair a qualquer momento. Pensei em indicar rapidinho, pedir licença ao senhor e à senhora e correr. Sabia que, no fim de semana, se perdesse aquele, o próximo seria só daqui a trinta minutos. Ou mais. Ou nunca, dependendo do humor da empresa.
Indiquei o local. A boca dele fez um movimento esquisito e as sobrancelhas quase se encostaram uma na outra. Conheço essa cara. É a mesma que eu faço quando me explicam o horário do 01.
— Mas eu preciso ir pra outra estação pra pegar o ônibus de Lagoa Santa?
— Não, senhor. Lagoa Santa é aqui mesmo.
Olhei para o meu ônibus. Ainda parado, mas já não havia ninguém do lado de fora. Todos estavam lá dentro, confortáveis, sentados, vivendo a vida que eu queria viver.
Dei dois passos, chamei o senhor e apontei uma placa.
— Olha, meu senhor, está vendo essas placas? Elas mostram os ônibus que param aqui.
Li alguns para ele:
— O 4220 vai pra Santa Luzia. O 4100 também vai, mas via Kennedy.
A confusão não pareceu diminuir. Pelo contrário, acho que agora ele estava preocupado com Santa Luzia também.
Andei com eles mais uma plataforma e apontei.
— Acho que é aqui.
Eu já tinha pegado aquele ônibus uma vez, mas fazia tanto tempo que a minha certeza era mais ou menos do tamanho da do senhor.
Olhei de novo para o meu ônibus. E lá ia ele, saindo tranquilo em direção à Cidade Administrativa, sem nem buzinar para se despedir. Ingrato.
Bom, já que tinha perdido mesmo...
— Vamos lá, vou ajudar o senhor.
Caminhei com os dois até a plataforma certa. Ele leu a placa, conferiu duas vezes e abriu um sorriso.
— É aqui mesmo! Muito obrigado, bombeiro.
— Por nada.
— Como eu posso lhe pagar?
— Não tem que pagar nada. Espero ter ajudado.
— Mas como eu posso lhe pagar, bombeiro?
— Nada, senhor. Espero que seu ônibus não demore.
Virei em direção à minha plataforma e ele disse:
— Vai ser pago no céu.
Dei uma risadinha e agradeci. Pensei que, no céu, pelo menos, os ônibus devem passar no horário.
Fui para a minha plataforma esperar o próximo 01. Agora tinha mais trinta minutos, no mínimo, para trabalhar no meu livro: *As Crônicas de Ferro e Sangue*. Pensando bem, o senhor já tinha começado a me pagar.
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