A gangue de quatis e o arrastão no Buritis
Coluna assinada por Jeferson Magno Amorim Manini, Bombeiro militar e escritor, colunista de crônicas sobre Belo Horizonte. O texto reflete a opinião do autor e não representa necessariamente a posição do Na Savassi.

Imagine você fazendo suas compras tranquilamente em um supermercado Não sei se sabe mas há uma diferença enorme entre o supermercado da periferia e da zona sul. Os da zona sul tem visitas ilustres. Talvez estivessem escolhendo uma carne para o almoço, comparando o preço do café ou quem sabe tentando decidir se vale a pena levar aquele pacote de biscoito e um danone em promoção pro filho.
Estava tudo normal, andando pelas gôndolas, pegando produtos. Um saco de arroz, feijão. Cada um cuidando do seu carrinho, puxando sua cestinha e calculando mentalmente quanto vai gastar.
Até que algo aparece correndo. O cidadão concentrado e não gastar mais do que o misêre se propõe a comprar, acha que talvez seja um rato. Não viu muita coisa, só um bicho pequeno correndo entre as estantes.
Mas de repente. Não um. Não dois. Seis.
Eles não entraram para dar uma olhadinha nas ofertas, conferir o preço da banana ou aproveitar o ar-condicionado. Não. Os animaizinhos entraram no supermercado como quem já conhecia o lugar, estavam em casa e sabia exatamente o que queriam.
Em pouco tempo, aquele sossego mineiro, que só quem toma café e come pão de queijo sabe, foi embora. Produtos rasgados, comida sendo devorada e clientes tendo que lidar com visitantes que não entendiam — ou simplesmente não se importavam — com o conceito de espaço pessoal.
Olha só. Fecho os olhos e tente imaginar a cena.
Pega um produto na gôndola, se aproxima da tarjeta para ver o valor do produto na prateleira quando percebe uma movimentação estranha pelo canto do olho. Vira a cabeça e dá de cara com um quati. Talvez, por um breve momento, pense que eles estão apenas de passagem. Afinal, é um animal silvestre, pode ter se perdido, entrou por acaso. Já vai embora.
Coi-ta-di-nho
Então você percebe que ele não está de passagem coisa nenhuma. Está fazendo compras. Sim e carregando tudo pela boca. Falta de educação, não é. Mas talvez eles tenham, só não igual a gente.
Só que, ao contrário de você, ele não pretende pagar.
E, se alguém tentar atrapalhar seus planos, ainda corre o risco de ser atacado.
O supermercado, que até então era um lugar de compras, transformou-se em um cenário de guerra. As pessoas tentando se afastar, alguns correndo, outros gritando, funcionários sem saber o que fazer e seis quatis aproveitando a oportunidade como se tivessem acabado de descobrir um depósito de comida abandonado.
O que será que se passa nessa cabecinha. O que fez com que eles invadissem o local? Às vezes as coisas só acontecem sem existir nenhum plano. Ou talvez apenas uma porta aberta, sentido o cheiro dos alimentos e simplesmente seguido o nariz. Para eles, não há supermercado, clientes ou mercadorias. Há comida. Muita comida. E, aparentemente, não estão dispostos a entregá-la sem resistência.
Nós, seres humanos, gostamos de acreditar que organizamos o mundo, detentores de toda a verdade. Criamos regras, instalamos câmeras, colocamos etiquetas nos produtos, separamos os alimentos por corredores e passamos as compras no caixa. Tudo tem seu lugar e seu preço. Todas as coisas catalogadas.
Aí chegam seis quatis e, em poucos minutos, demonstram como essa organização depende de algumas condições bem específicas: que todo mundo respeite as regras e que ninguém entre pela porta querendo comer o estoque inteiro.
Naquele dia, pelo menos por alguns instantes, o Buritis teve uma clientela diferente. Seis consumidores que não conheciam o dinheiro, não tinham cartão de crédito, não estavam preocupados com a inflação e, pelo visto, também não pretendiam enfrentar a fila do caixa.
Só faltou alguém perguntar se aceitavam Pix.
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