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Peça sobre violência de gênero estreia no CCBB BH e fica em cartaz até 26 de outubro

Espetáculo "Nós ou Ninguém Podia Ouvir os Olhos Dela" chega pela primeira vez a BH, no CCBB, com entrada gratuita e jazz ao vivo.

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Peça sobre violência de gênero estreia no CCBB BH e fica em cartaz até 26 de outubro
Leandro Alves/Divulgação

O espetáculo "Nós ou Ninguém Podia Ouvir os Olhos Dela", da Cia. Entre Nós (SP), estreia nesta sexta-feira (2/10) em Belo Horizonte, no Teatro II do CCBB BH, na Praça da Liberdade, 450, Funcionários. A montagem fica em cartaz até 26 de outubro, com sessões de sexta a segunda, às 19h, e entrada gratuita. Esta é a primeira vez que a peça é apresentada na capital mineira e marca o início da primeira turnê nacional da companhia.

Dez anos em cena

Criada em 2015, a montagem completa uma década de existência investigando a violência de gênero por meio da dança-teatro e do jazz executado ao vivo. A idealizadora do espetáculo, Daniela Rosa, conta que a criação nasceu de uma necessidade pessoal de transformar em cena experiências, silêncios e violências que atravessam a vida de muitas mulheres. A pesquisa passou por notícias, literatura, música e histórias de mulheres, incluindo casos de feminicídio ocorridos em Minas e tragédias que contribuíram para mudanças na legislação e na jurisprudência.

Para o diretor Fernando Gimenes, a escolha do corpo como principal elemento da narrativa parte de uma constatação: ele reage antes mesmo que seja possível organizar uma explicação. Desde o início da pesquisa, a companhia buscou fazer com que os estados de violência surgissem dos próprios movimentos e dos embates entre os intérpretes, dando forma cênica às diferentes manifestações da violência de gênero que acontecem dentro de casa.

Dez anos depois, a permanência da obra provoca sentimentos contraditórios em Daniela. Se a longevidade revela a potência da arte como instrumento de denúncia, também expõe a dificuldade da sociedade em romper com estruturas que mantêm as mulheres vulneráveis. "O que permanece profundamente incômodo – e trágico – é perceber que a obra continua atual", diz a atriz.

Plateia ao redor da cena

A configuração da montagem coloca o público em uma posição diferente da de um espectador convencional. A cena se dá dentro de uma casa, com a plateia ao redor dos atores, sem a distância habitual entre palco e plateia. Não há interação direta, mas é possível perceber a respiração, a transpiração e a tensão dos corpos em cena. "As pessoas são convocadas a não ser apenas espectadoras, mas testemunhas do que acontece ali", afirma Daniela.

Essa proximidade produz reações que chegam ao elenco durante a apresentação. Choros, tensão, espanto, reconhecimento e silêncio fazem parte da experiência descrita pela atriz, que percebe quando alguém chora ou prende a respiração. "Sentir o público ali me afeta em cena. Isso também forma intencionalidade. Então, vibro muito de acordo com a plateia", explica.

Em uma cena, Daniela estende os braços em direção à plateia em um pedido silencioso de ajuda. Durante anos, o público respondeu como testemunha, muitas vezes paralisado diante da violência apresentada. Até que, em uma apresentação específica, um homem rompeu a barreira entre cena e plateia e segurou suas mãos por alguns segundos. Para a atriz, aquele gesto materializou o que a obra procura provocar: a passagem da condição de quem apenas assiste para a de quem reconhece a violência e decide agir.

Jazz ao vivo e homenagem a Nina Simone

A música ocupa lugar central na experiência. Executado ao vivo por Renata Prado (vocal e guitarra) e Wendel Dima (bateria), o jazz acompanha os movimentos dos intérpretes e ajuda a criar a atmosfera de tensão da montagem. A escolha do gênero parte da relação entre o ritmo e a pulsação de um corpo. O repertório ainda presta homenagem a Nina Simone, cuja trajetória e experiências de violência também serviram de referência para a criação do espetáculo.

Em cena, Daniela Rosa e Rafael Bougleux conduzem a relação entre os personagens, explorando os limites de uma relação amorosa e as diferentes formas que a violência pode assumir. A maneira como a protagonista aparece no palco mudou ao longo dos dez anos do espetáculo: quando começou o trabalho, a atriz pensava em uma personagem mais próxima da imagem de vítima, fragilizada pela situação. Com o tempo, outras nuances surgiram. "As mulheres tentam muito sair disso. Também tentam espaços de se colocar ali", afirma.

A temporada em Belo Horizonte tem significado particular para Daniela, devido à relação da cidade com a violência contra a mulher. "Para mim, especificamente, é um lugar onde pulsa a esperança de que isso avance", comenta a atriz.

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Bairros nesta matéria: Funcionários

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