BH, 20 de outubro de 2026
Terça-feira, 18:35

Pejotização: quando o contrato diz uma coisa e a vida real diz outra

A pejotização exige analisar se o contrato reflete a realidade: quando há subordinação e rotina de emprego, a PJ pode ser fachada. O STF definirá parâmetros sob

Coluna assinada por Dr. Carlos Alberto Barone Júnior, Advogado, professor universitário e especialista em Direito do Trabalho. O texto reflete a opinião do autor e não representa necessariamente a posição do Na Savassi.
Pejotização: quando o contrato diz uma coisa e a vida real diz outra
Imagem ilustrativa Na Savassi/IA
Há contratos que cabem perfeitamente em duas páginas, mas carregam riscos capazes de ocupar anos de uma empresa.

É o que pode acontecer com a pejotização — expressão que define situações em que um profissional presta serviços por meio de uma pessoa jurídica, em vez de ser contratado como empregado.

Na teoria, nada de extraordinário.

Empresas contratam fornecedores, consultores e especialistas. Profissionais abrem empresas, emitem notas fiscais e negociam sua forma de trabalhar. A economia moderna depende de relações flexíveis.

Quando o contrato esconde a realidade

A dificuldade começa quando a pessoa jurídica existe no contrato, mas desaparece na vida real.

Imagine quem tem CNPJ, emite nota fiscal e recebe como prestador de serviços. Mas, todos os dias, chega no mesmo horário, responde a um superior, cumpre ordens, justifica ausências e não tem liberdade para organizar a própria atividade.

O papel diz “empresa”.

A rotina diz “emprego”.

O debate que chegou ao STF

É essa diferença que está no centro de uma discussão no Supremo Tribunal Federal, no Tema 1.389 de repercussão geral. O STF deverá estabelecer parâmetros sobre a contratação de trabalhadores autônomos ou por meio de pessoas jurídicas, incluindo a validade dessas relações e a responsabilidade pela prova de eventual fraude.

Pode parecer um debate restrito aos tribunais. Não é.

Para o empresário, a discussão toca uma das questões mais sensíveis de qualquer negócio: quanto custa contratar uma pessoa — e quanto pode custar contratar da maneira errada?

Nos últimos anos, a forma de trabalhar mudou profundamente. A tecnologia criou novas profissões, consultores passaram a atender vários clientes e profissionais especializados escolheram atuar de forma independente. Startups e empresas de serviços também adotaram estruturas mais enxutas.

O emprego tradicional deixou de ser a única possibilidade.

E isso é positivo.

Uma economia dinâmica precisa de liberdade para criar novas formas de trabalho. O problema não está na prestação de serviços por pessoa jurídica, mas em usar essa estrutura como fachada para uma relação que, na prática, continua sendo de emprego.

Autonomia real versus autonomia de papel

Essa distinção é importante porque existe diferença entre autonomia verdadeira e autonomia de papel.

Um profissional realmente autônomo tem espaço para organizar sua atividade, negociar condições e administrar a entrega do serviço.

Já quem depende de ordens permanentes, cumpre horários rígidos, não pode se fazer substituir e funciona como qualquer empregado pode estar diante de uma situação muito diferente.

Não basta perguntar qual documento foi assinado.

É preciso olhar para o que acontece depois que ele vai para a gaveta.

Em junho de 2026, o ministro Gilmar Mendes determinou a retomada de processos sobre pejotização que estavam suspensos nas instâncias inferiores da Justiça do Trabalho. A medida considerou, entre outros fatores, o grande volume de processos que aguardava uma definição do STF.

O movimento mostra que o assunto está longe de ser acadêmico. Ele já produz consequências concretas para empresas e trabalhadores.

O risco que não aparece na planilha

Para quem administra um negócio, fica uma conclusão: este não é o melhor momento para tratar a pejotização como simples estratégia de redução de custos.

Aliás, talvez nunca tenha sido.

Um contrato de prestação de serviços pode representar uma solução legítima e eficiente. Mas, quando utilizado para mascarar uma relação de emprego, aquilo que parecia economia pode se transformar em passivo.

E passivo trabalhista não costuma aparecer no balanço com a mesma elegância de uma economia de custos na planilha.

Uma empresa pode economizar mensalmente e, anos depois, descobrir o preço dessa decisão. Reconhecimento de vínculo, férias, 13º salário, FGTS, horas extras e outras verbas podem transformar uma escolha aparentemente pequena em uma conta expressiva.

Por isso, a discussão precisa sair do departamento jurídico.

O RH precisa conhecer.

O financeiro precisa conhecer.

E, principalmente, quem toma decisões estratégicas precisa conhecer.

A pergunta empresarial mais madura não é apenas “quanto vou economizar contratando dessa forma?”. É também: “qual risco estou comprando junto com essa economia?”

Essa mudança de olhar é fundamental.

O Direito do Trabalho não precisa ser inimigo da flexibilidade. Empresas precisam de liberdade para organizar seus negócios, assim como profissionais precisam de espaço para escolher como trabalhar.

Mas liberdade contratual não significa ignorar a realidade.

Talvez esse seja o ponto mais interessante da discussão sobre pejotização. Ela não trata apenas de saber se alguém deve ser empregado ou empresário, mas de entender o que realmente acontece entre as partes.

E, nesse aspecto, a velha lógica continua atual: a realidade costuma ter mais força do que o nome que colocamos nas coisas.

No fim, um contrato pode chamar alguém de prestador. Pode existir um CNPJ, haver nota fiscal e uma cláusula dizendo que não existe vínculo empregatício.

Mas, se a relação funciona como emprego, alguém poderá fazer a pergunta que realmente importa:

o que existe no papel corresponde ao que acontece na vida real?

Para uma empresa bem administrada, talvez a melhor resposta seja aquela que pode ser dada antes de qualquer processo: sim.

 

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